Toda geração tem seus craques e suas memórias afetivas também, venha entender

Publicado em: 01/06/2026 Por Supera
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Há memórias que não chegam em silêncio. Elas acendem. Às vezes é uma música, o cheiro de uma comida ou o nome de um craque que marcou uma época. De repente, aquilo que parecia distante volta com força: o rádio ligado na sala, a família reunida diante da televisão, o gol comemorado na rua, a camisa do time guardada com cuidado. Mais do que recordar partidas, recordar o futebol é revisitar momentos de vida (SCHNEIDER; IRIGARAY, 2008).

Toda geração tem seu craque. Uns cresceram acompanhando Pelé, outros vibraram com o Zico, Sócrates, Romário ou Ronaldo Fenômeno. Cada nome carrega muito mais do que estatísticas: guarda histórias, afetos, encontros e experiências compartilhadas. Assim, o futebol ultrapassa o campo e transforma-se em um espaço simbólico onde memória, identidade e pertencimento se encontram. 

Estudos iniciais voltados ao envelhecimento mostram que lembranças associadas ao futebol possuem forte valor emocional e tendem a permanecer preservadas por mais tempo, inclusive em pessoas com demência. Segundo o Instituto de Longevidade (2024), memórias relacionadas ao esporte geralmente estão ligadas a experiências marcantes e emoções profundas, o que favorece sua preservação mesmo diante do avanço da Doença de Alzheimer. Nesse contexto, o futebol pode atuar como um importante estímulo para resgatar recordações, fortalecer vínculos e promover participação social (INSTITUTO DE LONGEVIDADE, 2024).

Nem todas as lembranças permanecem conosco da mesma forma. Algumas desaparecem com o tempo, enquanto outras continuam vivas mesmo após muitos anos. Isso acontece porque determinadas vivências carregam um forte componente emocional, dando origem ao que chamamos de memória afetiva (OLIVEIRA; PASIAN; JACQUEMIN, 2001).

A memória afetiva refere-se às lembranças associadas às emoções e situações importantes vividas ao longo da vida. Diferentemente de informações armazenadas de forma mecânica, essas recordações permanecem ligadas aos sentimentos despertados no momento vivido, tornando-se mais marcantes e duradouros (SUPERA, 2023). Dessa forma, acontecimentos acompanhados de alegria, pertencimento e vínculo emocional tendem a ser lembrados com maior facilidade. 

No futebol, isso se torna evidente. Muitas pessoas não recordam apenas o resultado de uma partida, mas o significado que aquele momento teve em suas vidas. O time acompanhado durante a juventude, o jogador admirado ou uma conquista marcante podem permanecer vivos na memória por estarem associados a sentimentos, a relações e a fases da trajetória pessoal. 

Atualmente, convivem diariamente cinco gerações diferentes, e cada uma delas possui memórias marcadas pelo futebol e pela Copa do Mundo. Os Baby Boomers viveram a era de Pelé; a Geração X acompanhou nomes como Romário e Bebeto; os Millennials cresceram assistindo Ronaldinho Gaúcho; a Geração Z vivencia o futebol de Lionel Messi, Neymar e Kylian Mbappé; enquanto a Geração Alpha, fortemente marcada pela tecnologia e pela velocidade da internet, consome o esporte de forma mais dinâmica, acompanhando fenômenos como a Kings League e conteúdos digitais em tempo real.

Dessa maneira, cada geração possui uma memória afetiva marcada pelo futebol. Ao refletir sobre as conquistas do Brasil na Copa do Mundo, percebe-se que a última vitória ocorreu em 2002, fazendo com que as pessoas nascidas naquele período tenham atualmente cerca de 24 anos. Nesse sentido, estudos apontam a importância da intergeracionalidade. Uma pesquisa realizada com 12 idosos e 21 crianças e adolescentes, durante um período de oito meses, concluiu que “a convivência intergeracional promove benefícios mútuos, pois permite que as pessoas idosas revivem lembranças importantes de suas trajetórias, enquanto os mais jovens ampliam sua compreensão sobre a velhice e aprendem a valorizar as experiências das pessoas idosas” (MASSI et al., 2016, p. 406).

Além disso, segundo o G1 (2014), cerca de 700 milhões de pessoas assistiram à abertura da Copa do Mundo, realizada no Brasil em 2014. Esse dado permite refletir sobre quantas gerações estavam reunidas compartilhando emoções, experiências, comemorando gols, vestindo a mesma camisa, colecionando álbuns de figurinhas e criando lembranças que permaneceriam vivas por muitos anos.

O impacto dessa convivência geracional promovida pelo futebol vai muito além do simples entretenimento, fortalecendo-se como um terreno fértil  para troca de experiências e memórias. Quando diferentes idades se encontram para falar de futebol, o jovem não apenas ouve sobre o gol do passado, mas passa a compreender o contexto histórico e social da época, impulsionando uma rica transmissão cultural e ressignificando o papel da pessoa idosa na sociedade. Esse diálogo constante atua diretamente no fortalecimento de vínculos familiares e sociais, tornando o jantar ou a arquibancada em espaços de cumplicidade entre gerações compartilhando a mesma vibração. Nesse cenário, o esporte se estabelece como uma poderosa ferramenta de conexão emocional, capaz de traduzir sentimentos complexos em uma linguagem universal. Sob a ótica da saúde pública e do bem-estar, essa inserção social e o estímulo cognitivo proporcionados pelas lembranças e interações futebolísticas funcionam como pilares para um envelhecimento mais ativo e integrado (NERI, 2021). Ao se manterem conectados afetivamente com suas comunidades e estimulados por meio de suas paixões, as pessoas idosas encontram no esporte um canal para preservar sua identidade, exercitar funções cognitivas, combater o isolamento e exercer sua cidadania plenamente (BOREM et al., 2019).

Em conclusão, fica evidente que cada geração tem o seu próprio craque, formado pelos ídolos e pelas mídias de seu tempo, seja na era de ouro de Pelé acompanhada pela rádio, ou na dinamicidade digital da nova Geração Alpha. No entanto, independente de quem veste a camisa 10 da vez, todas as gerações compartilham o mesmo amor genuíno pelo futebol. As estatísticas e os resultados dos jogos podem se perder nos registros do tempo, mas a memória afetiva gerada ao redor do campo une muito mais do que separa, demonstrando que o sentimento de pertencimento sobrevive aos anos. O futebol, portanto, funciona como uma verdadeira ponte entre tempos e pessoas, um patrimônio cultural e emocional intangível que conecta o passado ao presente e garante que as futuras gerações continuem celebrando a vida, o afeto e as conexões humanas a cada novo apito inicial.

Referências Bibliográficas: 

BOREM, F. S. et al. O futebol como instrumento de estimulação cognitiva e socialização em idosos institucionalizados. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 22, n. 3, e190045, 2019.

INSTITUTO DE LONGEVIDADE. Futebol ajuda idosos com Alzheimer a resgatar memórias. São Paulo, 2024. Disponível em: https://institutodelongevidade.org/longevidade-e-saude/saude-mental/futebol-ajuda-idosos-com-alzheimer

MASSI, Giselle et al. Impacto de atividades dialógicas intergeracionais na percepção de crianças, adolescentes e idosos. Revista CEFAC, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 399-408, mar./abr. 2016. DOI: 10.1590/1982-0216201618217515. 

NERI, A. L. Envelhecimento ativo e solidariedade intergeracional: reflexões contemporâneas. Campinas: Alínea, 2021.

OLIVEIRA, E. A.; PASIAN, S. R.; JACQUEMIN, A. A vivência afetiva em idosos. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 21, n. 1, p. 68–83, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1414-98932001000100008. Acesso em: 21 maio 2026. 

SCHNEIDER, R. H.; IRIGARAY, T. Q. O envelhecimento na atualidade: aspectos cronológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 25, n. 4, p. 585–593, 2008. 

SUPERA. Memória afetiva e emoções: qual a relação? 2023. Disponível em: https://metodosupera.com.br/memoria-afetiva-e-emocoes/ 

Torcedores se preparam para a abertura da Copa do Mundo. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/06/torcedores-se-preparam-para-abertura-da-copa-do-mundo.html.

Assinam este texto:

Beatriz Bagli Moreira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora do Programa de Estimulação Cognitiva Mentes Ativas, coordenado pela Profa. Dra. Thais Bento.  É bolsista de Iniciação CNPq, desenvolvendo pesquisa sobre a análise da relação entre estratégias de memorização e o desempenho cognitivo em pessoas idosas saudáveis participantes de uma intervenção de estimulação cognitiva. E-mail: beatrizbagli@usp.br | Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1642010505455974    

Betsabe Aparecida Jorge Ylla – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora do projeto Idosos On-line – Letramento Digital da USP 60+, coordenado pela Profa. Dra. Meire Cachioni. E-mail: Betsabe@usp.br 

Nathália Kubo Barboza – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH -USP). Atua como bolsista no grupo de pesquisa BRANCH, coordenado pela Profa. Dra. Mônica Yassuda. E-mail: nathaliakubobarboza@usp.br  | Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/2079007858990495 

Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br    

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