O que é epigenética? Entenda como é possível usar o estilo de vida para moldar os genes?

Publicado em: 19/06/2026 Por Supera

O envelhecimento humano é resultado de uma complexa interação entre fatores biológicos, ambientais e sociais que atuam ao longo de toda a vida. Embora a herança genética exerça influência importante sobre a saúde e a longevidade, evidências científicas demonstram que os genes não atuam de forma isolada. A maneira como eles são ativados ou silenciados pode ser modificada por experiências e condições ambientais, fenômeno estudado pela epigenética. Essa área do conhecimento tem despertado crescente interesse por contribuir para a compreensão dos mecanismos que relacionam estilo de vida, envelhecimento e desenvolvimento de doenças crônicas (Ekowati & Siswanto, 2024).

A epigenética pode ser definida como o estudo das alterações herdáveis e potencialmente reversíveis na expressão gênica que ocorrem sem mudanças na sequência do DNA. Em outras palavras, trata-se de mecanismos que regulam a atividade dos genes, determinando quais informações genéticas serão utilizadas pelas células em diferentes momentos da vida. Entre os principais mecanismos epigenéticos destacam-se a metilação do DNA, as modificações das histonas e a ação dos RNAs não codificantes, que atuam como reguladores da expressão gênica (Wang et al., 2026).

Diferentemente da visão determinista que predominou durante parte do século XX, os avanços da biologia molecular têm demonstrado que o ambiente exerce influência significativa sobre esses mecanismos regulatórios. Alimentação, prática de atividade física, qualidade do sono, níveis de estresse, exposição à poluição ambiental, consumo de álcool e tabagismo são exemplos de fatores capazes de promover alterações epigenéticas ao longo do curso de vida (Kusters & Horvath, 2024). Dessa forma, indivíduos com predisposições genéticas semelhantes podem apresentar diferentes condições de saúde e envelhecimento em decorrência das experiências e exposições acumuladas ao longo dos anos.

Essa perspectiva encontra convergência com o conceito de determinantes sociais da saúde. Segundo Buss e Pellegrini Filho (2007), as condições em que as pessoas nascem, crescem, trabalham e envelhecem influenciam diretamente seus níveis de saúde e bem-estar. A epigenética oferece um possível mecanismo biológico para compreender como essas condições sociais podem repercutir no organismo, demonstrando que fatores ambientais e sociais são capazes de influenciar processos biológicos fundamentais relacionados ao envelhecimento e ao adoecimento.

No campo da Gerontologia, a epigenética tem sido considerada uma das áreas mais promissoras para a compreensão do envelhecimento biológico. Estudos indicam que alterações epigenéticas acumulam-se progressivamente com o avanço da idade e estão associadas à senescência celular, à redução da capacidade de reparo dos tecidos e ao aumento da vulnerabilidade a doenças crônicas não transmissíveis (Evangelina, Ganesan & George, 2025). Entre essas condições destacam-se as doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, a osteoporose e as doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer e outras demências (An et al., 2025).

Um dos avanços mais relevantes da área foi o desenvolvimento dos chamados relógios epigenéticos, instrumentos capazes de estimar a idade biológica de um indivíduo a partir de padrões de metilação do DNA. Diferentemente da idade cronológica, que corresponde ao número de anos vividos, a idade biológica procura refletir o estado funcional do organismo. Pesquisas recentes demonstram que hábitos saudáveis estão associados a menor aceleração do envelhecimento epigenético, enquanto comportamentos de risco tendem a estar relacionados a um envelhecimento biológico mais rápido (Johnson & Shokhirev, 2025; Yamada, 2025).

No Brasil, embora os estudos sobre epigenética do envelhecimento ainda sejam menos numerosos do que em países da América do Norte e Europa, pesquisadores têm destacado a relevância dessa área para a compreensão das desigualdades em saúde. Em reportagem divulgada pela Universidade de São Paulo, pesquisadores ressaltam que fatores ambientais podem influenciar mecanismos epigenéticos relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas, evidenciando a importância das condições de vida na regulação da expressão gênica. Esses achados reforçam a necessidade de compreender o envelhecimento não apenas sob uma perspectiva biológica, mas também social e ambiental (Martins et al., 2021).

Essa discussão dialoga diretamente com a proposta de envelhecimento ativo defendida por Kalache e Kickbusch (2001), segundo a qual a saúde na velhice resulta da interação contínua entre fatores individuais, comportamentais e contextuais. Sob essa perspectiva, promover hábitos saudáveis não significa apenas prevenir doenças, mas também favorecer condições que possam contribuir para a manutenção da autonomia, da funcionalidade e da qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

Outro aspecto que tem despertado interesse científico é o fato de muitas modificações epigenéticas serem potencialmente reversíveis. Diferentemente das alterações permanentes na sequência genética, algumas marcas epigenéticas podem ser modificadas em resposta a mudanças comportamentais ou intervenções terapêuticas. Embora essa área ainda esteja em desenvolvimento, os resultados atuais sugerem que estratégias relacionadas à alimentação saudável, prática regular de atividade física e redução de fatores de risco podem contribuir para padrões epigenéticos mais favoráveis e, consequentemente, para um envelhecimento mais saudável (Yu et al., 2025).

Portanto, a epigenética amplia a compreensão do envelhecimento ao demonstrar que a herança genética não determina, de forma isolada, a trajetória de saúde dos indivíduos. Os genes fornecem uma base biológica importante, mas sua expressão é continuamente influenciada pelas experiências vividas, pelos hábitos adotados e pelas condições sociais e ambientais às quais as pessoas estão expostas. Assim, a epigenética reforça a ideia de que o envelhecimento é um processo dinâmico e multifatorial, no qual o estilo de vida pode desempenhar papel fundamental na promoção da saúde e da longevidade.

Referências

AN, Y. et al. Epigenetic Regulation of Aging and its Rejuvenation. MedComm, v. 6, 2025.

BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A saúde e seus determinantes sociais. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.

EKOWATI, A. L.; SISWANTO, F. M. Epigenetic Alterations in Aging: A Brief Review. Journal of Urban Health Research, 2024.

EVANGELINA, R.; GANESAN, S.; GEORGE, M. The Epigenetic Landscape: From Molecular Mechanisms to Biological Aging. Rejuvenation Research, v. 28, p. 93-112, 2025.

JOHNSON, A. A.; SHOKHIREV, M. N. First-generation versus next-generation epigenetic aging clocks: Differences in performance and utility. Biogerontology, v. 26, 2025.

MARTINS, C. A. et al. Epigenética: fatores ambientais podem contribuir para hipertensão em populações afrodescendentes. Jornal da USP, 2021.

WANG, X. et al. Integrated epigenetic networks in aging: from histone to RNA modifications. Journal of Translational Medicine, v. 24, 2026.

YAMADA, H. Epigenetic Clocks and EpiScore for Preventive Medicine: Risk Stratification and Intervention Models for Age-Related Diseases. Journal of Clinical Medicine, v. 14, 2025.

YU, H. et al. Epigenetic pharmacology in aging: from mechanisms to therapies for age-related disorders. Frontiers in Pharmacology, v. 16, 2025.

Assinam o texto:

Djessica Hilton Peixoto – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro. Pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades relacionadas ao envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: djessicahiltongeronto@gmail.com

Kauane Macedo Barbosa – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro. Atua como pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Participa como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital, educação gerontológica e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: gerontokauane@gmail.com

Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br    

Compartilhar este artigo
  • X
  • LinkedIn
  • Share

Gostou desse conteúdo? Deixe um comentário ;)

  • Nenhum comentário ainda

Nenhum comentário para "O que é epigenética? Entenda como é possível usar o estilo de vida para moldar os genes?"

Faça um comentário

Supera PRESENCIAL

O Supera Estimulação Cognitiva é voltado para todas as pessoas a partir de 5 anos, sem limite de idade. O curso potencializa a capacidade cognitiva aumentando a criatividade, concentração, foco, raciocínio lógico, segurança, autoestima, perseverança, disciplina e coordenação motora. As aulas, ministradas uma vez por semana com duração de duas horas, são dinâmicas e contagiantes, com atividades que agradam todo tipo de público.

Supera para escolas Método de estimulação cognitiva

Exclusivo para Instituições de Ensino. O Supera é a mais avançada ferramenta pedagógica de estimulação cognitiva e, portanto, representa um grande diferencial para sua instituição de ensino. Além de ser um excelente recurso de marketing, o método melhora o desempenho dos alunos e eleva os índices de aprovação da sua escola.

Franquia SuperaEmpreenda em Educação

Criado em 2006, o Supera é hoje a maior rede de escola de Estimulação Cognitiva do Brasil. Em um ano de operação, entrou para o sistema de franquias e hoje já possui 250 unidades no país. O curso, baseado em uma metodologia exclusiva e inovadora, alia neurociência e educação. Se você tem interesse em empreender nesta área, deixe seu cadastro em nosso site.