Como a neurociência pode ajudar na educação dos filhos?

Publicado em: 09/06/2014 por: Barbara

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Neurocientista e consultora do SUPERA, Carla Tieppo

Neurociência: estímulos externos, como celulares e videogames, podem influenciar nos processos de aprendizagem das crianças

Uma das últimas fronteiras do conhecimento que parecia até pouco tempo difícil de ser transposta, começa a ser atingida a partir do desenvolvimento técnicas modernas para observação do cérebro humano em funcionamento. Estes conhecimentos fazem parte da neurociência e estão sendo cada vez mais aplicados para contribuir com o avanço de diversas áreas. Na educação isso não poderia ser diferente.

Em especial porque políticas de inclusão de crianças especiais impulsionaram professores e pedagogos na direção do entendimento mais profundo do funcionamento cerebral para o desenvolvimento de técnicas inclusivas mais eficientes.

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Neurociência aponta estímulos externos como uma das causas da falta de motivação das crianças

Porém, neste artigo, vamos falar de alguns conhecimentos que foram desenvolvidos na Neurociência e que podem favorecer os processos de aprendizagem para todas as crianças.

Vivemos um tempo em que os percentuais de crianças afetadas por distúrbios de aprendizagem crescem ano após ano. Com certeza, nosso crescente entendimento sobre estes distúrbios favorecem um diagnóstico mais apropriado e podem fazer com que alguns casos que antes eram difíceis de serem abordados sejam facilmente diagnosticados hoje.

Para falar das causas do aumento desses distúrbios, não podemos deixar de considerar as mudanças dos últimos vinte anos. A forma como nossa sociedade se organiza e as mudanças de hábito também representam algumas das causas para o crescimento de diagnósticos de déficit de atenção, hiperatividade, transtornos de conduta, dislexias e discalculias, entre outros.

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Até a década de 80, a novela das oito não era permitida para crianças. Neste horário, logo depois do jantar, as crianças iam para a cama e liam um pouco de histórias infantis e dormiam cedo. A noite não havia desenhos animados na televisão. Também não jogavam videogames nem ficavam nas redes sociais. A leitura à luz do abajur ou a voz amorosa dos pais que contavam histórias permitia que o sono fosse conciliado mais tranquilamente. A rotina de dez a doze horas de sono diárias era comum na adolescência. Se frequentavam a escola pela manhã, não se mostravam sonolentos. Se iam à tarde, aproveitavam a manhã para brincadeiras e tarefas escolares. Os menores ainda podiam tiram um “cochilo” pela tarde.

Agora a sociedade se organiza de forma muito diferente. Logo nos primeiros anos de vida, a tecnologia é usada para distrair as crianças. Por conta da grande quantidade de estímulos externos, há uma resistência muito grande das crianças em ir pra cama. Os pais que trabalham fora usam a noite para aproximarem-se dos filhos e isso também retarda o horário de ir para a cama.

Essas mudanças podem interferir nos processos de desenvolvimento e aprendizagem?

Nossa noite de sono é dividida em duas principais etapas. Em uma delas, o cérebro encontra-se em um estado de atividade chamado de “fase de ondas lentas”, em que os circuitos neurais menos ativados permitem uma recuperação metabólica dos neurônios.

Outra fase, chamada de “sono de ondas rápidas” (ou sono REM- da sigla em inglês que significa movimentos oculares rápidos), parece estar diretamente ligada à capacidade do cérebro de fixar memórias por um tempo maior.

Assim, parece que durante esta fase do sono, os acontecimentos e aprendizados do cotidiano são selecionados pelo grau de importância, repetição ou relevância emocional que possuem.

Estes dois tipos de sono se revezam a noite toda. Durante as primeiras horas de sono, mais tempo é dedicado ao sono de ondas lentas e a medida em que o tempo de sono vai ficando maior, estes períodos vão sendo substituídos pelo REM.

Pode estar aí a explicação para o período em que estamos produzindo e fortalecendo novas conexões e circuitos nervosos, ou seja, na infância, nossa necessidade de horas diárias de sono também seja maior.

Assim, um dos aprendizados mais importantes que podemos tirar de nossos conhecimentos neurocientíficos é que nossas crianças precisam dormir bastante e ter um sono de qualidade. Rotinas que favoreçam o estabelecimento de um ritmo adequado de sono são fortemente recomendadas e devem ser um objetivo na educação de nossos filhos.

Na escola, por mais que os professores procurem utilizar-se de materiais bastante estimulantes, dificilmente vão conseguir competir com o grau de estímulo que as novas tecnologias proporcionam.

Muitas habilidades que a criança pode vir a desenvolver depende diretamente da relação entre aluno e professor. Uma relação humana que requer o estabelecimento de vínculos afetivos e conquistas de confiança. Este tipo de relação precisa ser uma prática costumeira para a criança. Se as relações que a criança costuma desenvolver se dão através dos aparatos tecnológicos, os professores não serão tão ágeis em responder, interagir e estimular as crianças que já não sabem mais esperar, pois precisam se dividir para dar atenção a várias crianças.

Isso não significa que as crianças não devam aproveitar os benefícios tecnológicos para desenvolver habilidades que estes recursos proporcionam. Jogar videogames ajuda no desenvolvimento de algumas habilidades motoras e cognitivas e isto não precisa ser deixado de lado. Mas não podemos esquecer que as relações humanas também precisam ser treinadas e desenvolvidas e é nestas relações que o indivíduo aprende conteúdos que só o espelhamento e a imitação proporcionam. Assim, nossas crianças precisam das relações humanas e para usufruir disso precisam treinar seus cérebros.

Outro aspecto que está ficando perdido na nova sociedade é a atividade física lúdica e variada. Optamos por colocar nossos filhos em aulas de natação, lutas marciais ou de ginástica olímpica, entre outras atividades físicas direcionadas. E é crescente o número de crianças que não querem trocar o videogame nem o computador por estas atividades. A atividade física direcionada favorece a disciplina, mas por isso mesmo pode tornar-se tão entediante quanto as aulas expositivas da escola.

Sabemos que a atividade física favorece o desenvolvimento cerebral e auxilia até mesmo adultos na resolução de problemas e tomadas de decisão. Mas o brincar desenvolve novos circuitos neurais a todo instante porque a brincadeira muda, a brincadeira pode ser inventada e a brincadeira não cansa nem entedia.

Em especial, novas descobertas sobre o papel do cerebelo nos processos da cognição podem em breve trazer informações surpreendentes sobre o papel do desenvolvimento motor e da brincadeira para os processos pedagógicos da criança.

Nesses nossos novos tempos, devemos incorporar a tecnologia em nosso cotidiano e aproveitar dos processos que ela acelera e transforma, mas não podemos deixar de desenvolver nossa mente associada a um corpo saudável, ativo, bem nutrido e descansado. A neurociência apresenta dados que reforçam essa necessidade.

Barbara

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