Neurociência do esporte e do exercí­cios

Publicado em: 23/10/2008 por: Supera

Os avanços tecnológicos de imageamento cerebral, nos últimos dez anos, resultaram em uma maior compreensão da mente humana, contribuindo, ainda, para o progresso de uma subárea da Ciência do Esporte: a Psicologia do Esporte e Exercício (PEE). Mesmo assim, ainda existem poucos trabalhos sendo desenvolvidos e aplicados pelos psicólogos do esporte e exercício cujo enfoque seja a Neurociência Cognitiva e Comportamental (NCC).

Assim, neste artigo pretendo apresentar alguns resultados de pesquisas recentes na área da NCC e sugerir mudanças de paradigmas na atuação do futuro profissional em PEE. Nesse contexto, seria relevante pensar em uma nova proposta – a Neurociência do Esporte e do Exercício – para estimular a criação de um novo caminho para as questões de performance e saúde mente-corpo.

EMÍLIO TAKASE é professor do Laboratório de Neurociência do Esporte e Exercício, Departamento de Psicologia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.

e-mail:
takase@cfh.ufsc.br

(Transcrevemos os principais trechos do artigo publicado pelo professor Emílio Takase.)

Introdução

Nos últimos 30 anos, os trabalhos desenvolvidos pelos psicólogos do esporte e do exercício (PEE) têm estado em constante evolução. Porém, ainda há muito a se entender sobre o desempenho dos atletas, a aderência ao treino, a concentração, entre outros temas da PEE. Apesar de inúmeras pesquisas nos últimos anos sobre a PEE, muitas estiveram focadas a temas clássicos, como ansiedade, motivação e concentração, nas quais utilizaram-se instrumentos como questionários, inventários e entrevistas….que são apenas a análise de conteúdo e a descrição, muitas vezes, dos comportamentos das pessoas. Além disso, muitas dessas pesquisas estão relacionadas aos aspectos emocionais, deixando de lado os aspectos cognitivos.

Assim, esses resultados não têm contribuído para:

a) diminuir horas de treinamento e melhorar a qualidade de treinamento dos atletas;
b) motivar as pessoas para a prática de exercício físico e mental;
c) compreender melhor a pessoa individualmente, oferecendo um trabalho diferenciado;
d) oferecer às crianças uma iniciação esportiva adequada a sua faixa etária.

Por outro lado, a década de 90 representou um marco no que diz respeito ao início da nossa história científica e tecnológica na compreensão do cérebro. Assim, a partir das descobertas já feitas, é possível imaginar os avanços na compreensão do comportamento humano através de novos estudos da Neurociência Cognitiva e Comportamental (NCC).

É inegável a contribuição da Neurociências à Ciência do Esporte, uma vez que já estão sendo aplicados resultados de pesquisas à Psicologia do Esporte e Exercício, à Medicina do Esporte, à Fisioterapia do Esporte, à Nutrição do Esporte e à Educação Física. Assim, nesta revisão, pretendo apresentar alguns resultados de pesquisas em NCC que podem ser aplicados à Psicologia do Esporte e Exercício (PEE) e, além disso, propor a criação de uma Neurociência do Esporte e do Exercício.

Neurociência e psicologia do esporte

O sucesso do atleta na maioria das modalidades esportivas depende muito do preparo físico e psicológico, sendo que algumas modalidades esportivas como o tênis e tênis de mesa, por exemplo, dependem muito mais do fator psicológico do que do físico. É freqüente observar a relação entre a capacidade de concentração e o desempenho do atleta em várias modalidades esportivas. Mesmo treinando muitas horas, erros são freqüentes.

Um pênalti pode tirar o sonho de um atleta e da equipe de ganhar uma medalha de ouro; o tenista conhecido por realizar aquele saque indefensável pode apresentar falhas constantes durante o jogo……

Não apenas no vôlei, mas também em outras modalidades esportivas, o atleta depende muito da habilidade visuo-espacial: por exemplo, o atacante de futebol, o armador central de handbol e basquete, os atacantes no futsal, entre outras posições nas diversas modalidades esportivas.

Manning & Taylor 12] mostraram que os melhores jogadores ingleses de futebol americano apresentavam o quarto dígito mais longo que o segundo dígito, indicação de altos níveis hormonais de testosterona durante a fase adulta e fetal [13]. Os autores supõem que tais níveis elevados devem ser importantes para estabelecer e manter as funções das habilidades visuo-espaciais do sexo masculino [12]. …..

Supera e você na Disney

Mas o que vale ter as bases neurobiológicas inatas se os atletas ou mesmo as crianças/adultos não recebem treinamentos adequados para melhorar a performance? ……

Porém, até o momento, poucos estudos têm demonstrado o quanto o treino/exercício pode modificar a estrutura cerebral de um adulto e de crianças, e conseqüentemente influenciar na melhora das habilidades motoras e mentais, apesar de empiricamente observarmos que há mudanças comportamentais significativas.

Draganski et al. [17], por exemplo, realizaram um estudo para verificar se há mudança estrutural no cérebro de jovens que aprenderam, ao longo de três meses, a fazer malabarismo para manter no ar três bolinhas. Passado o período de treino, os autores verificaram, através de ressonância magnética funcional, aumento de área no córtex visual e parietal, associados possivelmente à melhora da visão de movimento e na localização espacial, respectivamente. Esta pesquisa revelou que o cérebro pode se modificar estruturalmente e não somente funcionalmente em jovens adultos, remetendo à questão da neurogênese e neuroplasticidade estrutural e funcional do cérebro depois do indivíduo se tornar adulto….

Outra pesquisa relacionada à plasticidade cerebral motora e treinamento é a de Mikheev et al.[19] com atletas de judô. Neste estudo, foram realizados testes de lateralidade do tempo de reação no processamento visual e auditivo em atletas experientes e não experientes. Houve preferência pelo hemisfério direito do cérebro para processamento verbal e informação visuo-espacial e pelo hemisfério esquerdo do cérebro para percepção da fala. Os resultados sugerem que o treinamento alterou a preferência de lateralidade dos atletas, sugerindo que a plasticidade cerebral motora nesta modalidade esportiva é significativa. Após anos de treino em judô, a lateralidade do comportamento motor do atleta pode ser alterada, permitindo que se utilize alguns golpes com a mão esquerda mais do que a direita, mesmo sendo destro.

Assim como as características biológicas e ambientais podem contribuir na mudança no desempenho das pessoas, alterando as funções cognitivas e emocionais, o treino em alguns jogos de videogame também tem mostrado melhora da capacidade de concentração (atenção tanto a foco interno como externo), das estratégias de aprendizagem, do controle da ansiedade, entre outras habilidades cognitivas e emocionais. Por exemplo, um estudo de Green & Bavelier[20] mostrou que os jogadores novatos em videogame obtiveram melhora na atenção visual após 10 dias de treino. Além disso, este estudo demonstrou que os jogadores também tiveram melhoradas a capacidade de orientação espacial e resolução temporal…..

Nas pesquisas em neurociência do comportamento, é possível utilizar, por exemplo, monitor de freqüência cardíaca [21], resposta galvânica da pele [22, 23], EEG biofeedback ou neurofeedback [24, 25], entre outros equipamentos, para registrar mudanças psicofisiológicas em várias situações determinadas pelo pesquisador/profissional do esporte.

Ao que parece, podemos inferir que as novas tecnologias digitais e os estudos das neurociências estão trazendo novas possibilidades na melhora do desempenho, reduzindo o tempo de treino/sessões. Por que não um programa dessa natureza para desenvolver algumas habilidades cognitivas e emocionais em atletas ou mesmo melhorar a performance do trabalhador ou de estudantes? ….

Conclusão

Foram apresentados alguns artigos relacionados à NCC e à PEE, demonstrando que estudos na NCC estão contribuindo para o avanço científico e tecnológico da PEE.

Um ponto importante a ressaltar é a necessidade da elaboração de meios na redução do tempo de treinamento através do desenvolvimento de ferramentas e modelos de intervenção que se ajustem às características físicas e psicológicas individuais. Através dos avanços de imageamento cerebral e biofeedback por EEG, em um futuro próximo será possível uma melhor compreensão do cérebro nas diversas situações de tarefas cognitivas e emocionais, auxiliando os pesquisadores a construir novas alternativas no treinamento/desenvolvimento das habilidades físicas e psicológicas, a fim de melhorar a performance e o equilíbrio mente-corpo das pessoas.

A formação de psicólogos do esporte e do exercício com enfoque em NCC fará diferença nos próximos anos, pois negar as contribuições da NCC é impedir o desenvolvimento ou atrofiamento de novas teorias psicológicas. Os psicólogos do esporte e exercício, a médio prazo, serão influenciados e motivados a introduzir a NCC nos seus trabalhos e disciplinas porque:

a) na maioria das modalidades esportivas, a competitividade está sendo decidida cada vez mais pelo lado mental;
b) no desenvolvimento físico e psicológico das crianças, o enfoque em neurociências é fundamental na educação;
c) na área da saúde, quanto mais cedo introduzirmos o trabalho mental à atividade física, melhores serão os benefícios a longo prazo.

Quem sabe, no futuro próximo poderemos estar articulando um evento científico chamado “I Congresso Brasileiro de Neurociência do Esporte e Exercício”, onde as contribuições da NCC à PEE serão inquestionáveis ao avançocientífico e tecnológico da sociedade do século XXI.

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