Estimulação cognitiva e reserva cerebral: como “treinar” o seu cérebro para uma vida ativa e com autonomia
É comum observarmos que algumas pessoas conseguem manter a memória, a atenção e o raciocínio preservados mesmo em idades mais avançadas. Uma das explicações para esse fenômeno está relacionada ao conceito de reserva cognitiva, que corresponde à capacidade do cérebro de utilizar estratégias e recursos adquiridos ao longo da vida para lidar com desafios e compensar possíveis perdas funcionais. Essa reserva é construída por meio das experiências vividas, da educação, do trabalho, das relações sociais e da participação em atividades intelectualmente estimulantes, como acesso à cultura e exercícios cognitivos.
Para compreender melhor este conceito, é importante diferenciá-lo da reserva cerebral. Enquanto a reserva cerebral está relacionada aos aspectos estruturais do cérebro, como o volume cerebral e a quantidade de conexões neurais, a reserva cognitiva refere-se à maneira como esses recursos são utilizados. Em outras palavras, pessoas com trajetórias de vida semelhantes podem apresentar desempenhos cognitivos diferentes, dependendo das oportunidades de aprendizagem e dos estímulos acumulados ao longo dos anos (Stern et al., 2020).
Uma característica fundamental do cérebro é a sua capacidade de adaptação. Conhecida como neuroplasticidade, essa habilidade permite que novas conexões sejam formadas em resposta aos estímulos recebidos diariamente . Por isso, aprender algo novo, desenvolver habilidades e participar de atividades desafiadoras pode contribuir para a manutenção das funções cognitivas em qualquer fase da vida.
Mas como colocar esse cuidado em prática? Estudos apontam que as estratégias mais eficazes são aquelas que combinam diferentes tipos de estímulos. A associação entre atividades cognitivas, exercícios físicos e participação social tem demonstrado resultados positivos para a saúde cerebral e para a qualidade de vida (Livingston et al., 2024). Nesse contexto, hábitos como ler livros, jornais ou revistas, escrever sobre acontecimentos do cotidiano, aprender um novo idioma, tocar um instrumento musical ou utilizar aplicativos voltados ao treinamento cognitivo podem representar importantes oportunidades de estimulação mental. Da mesma forma, jogos que envolvem atenção, memória, planejamento e raciocínio contribuem para manter o cérebro ativo e engajado.
Além desses exercícios, é fundamental estar atento a fatores que podem prejudicar o seu desempenho. O estresse crônico, por exemplo, é um inimigo da mente. Níveis elevados de cortisol (o hormônio do estresse) podem prejudicar a memória e as funções de tomada de decisão, mesmo em pessoas que têm uma boa reserva cognitiva (McEwen & Akil, 2020). Por isso, o treino cerebral também inclui cuidar das emoções e buscar atividades que tragam bem-estar. Participar de grupos de amigos ou atividades em comunidade é essencial, pois a interação social combate o isolamento e estimula o cérebro de forma natural e prazerosa.
Em síntese, manter o cérebro ativo é um processo contínuo que pode ser incentivado por meio de escolhas realizadas no dia a dia. A estimulação cognitiva, associada a hábitos saudáveis e à participação social, pode contribuir para a preservação das capacidades cognitivas e para uma vida mais autônoma e participativa. Independentemente da idade ou da escolaridade, sempre é possível buscar novos aprendizados, vivenciar experiências enriquecedoras e investir na saúde do cérebro, promovendo bem-estar e qualidade de vida ao longo dos anos.

Referências
LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet Standing Commission. The Lancet, v. 404, n. 10452, p. 572-628, 2024.
MCEWEN, B. S.; AKIL, H. Revisiting the stress concept: implications for affective disorders. The Journal of Neuroscience, v. 40, n. 1, p. 12-21, 2020.
STERN, Y. et al. Whitepaper: Defining and investigating cognitive reserve, brain reserve, and brain maintenance. Alzheimer’s & Dementia, v. 16, n. 9, p. 1305-1311, 2020.
Profª. Drª. Thaís Bento Lima da Silva
Carolina de Souza Silva – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). E-mail: carolinasilva12@usp.br
Jakeline Fagundes Jácome – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). E-mail: jakelinejacome@usp.br
Letícia Alves Ferreira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). E-mail: leticiaferreira012@usp.br
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É membro da International Society to Advance Alzheimer’s Research and Treatment (ISTAART). É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
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