Aspectos emocionais e perfil de solidão em pessoas idosas após a aposentadoria
O envelhecimento humano constitui um processo multidimensional, resultante da interação contínua entre fatores biológicos, psicológicos e sociais ao longo do curso de vida. Nesse percurso, determinadas transições normativas assumem papel na reorganização da vida cotidiana, entre as quais se destaca a aposentadoria. Enquanto evento socialmente instituído, a aposentadoria implica mudanças na estrutura do tempo, nos papéis sociais e nas formas de participação social, com potenciais repercussões sobre a identidade, a saúde emocional e a vivência subjetiva da velhice.
Sob a perspectiva gerontológica, a aposentadoria deve ser compreendida como uma transição complexa, e não como um simples desligamento do trabalho remunerado. Para algumas pessoas idosas, esse período pode favorecer maior autonomia, ampliação do tempo livre e envolvimento em atividades significativas, incluindo o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Contudo, quando ocorre de forma não planejada ou em contextos de vulnerabilidade social, pode intensificar sentimentos de perda de utilidade, desvalorização social e redução das interações sociais, aspectos que muitas vezes são associados ao sofrimento psíquico e à solidão na velhice (Costa et al., 2023).
A ruptura com o papel produtivo, a diminuição da renda e o enfraquecimento das redes sociais podem dificultar a ressignificação da vida cotidiana, favorecendo o surgimento de sintomas como humor deprimido, apatia, fadiga, perda de interesse, alterações do sono e isolamento social. Esses sintomas tendem a ser mais prevalentes entre pessoas idosas que vivenciam a aposentadoria predominantemente como uma experiência de perda e descontinuidade existencial.
Entretanto, evidências nacionais indicam que a relação entre aposentadoria e sintomas depressivos não é homogênea. Dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) demonstram que o recebimento de aposentadoria ou pensão está associado a menor prevalência de sintomas depressivos, mesmo após o controle por variáveis sociodemográficas e de saúde (Freitas et al., 2023). Esses achados sugerem que a segurança financeira pode exercer efeito protetor sobre a saúde mental, ao reduzir o estresse relacionado à subsistência e ampliar o acesso a recursos de cuidado, lazer e participação social. Ainda assim, tais efeitos variam conforme escolaridade, renda, sexo, estado civil e autoavaliação de saúde, refletindo a heterogeneidade do envelhecimento.
Associada aos aspectos emocionais, a solidão configura-se como um fenômeno recorrente no período pós-aposentadoria e de grande relevância para a gerontologia. A saída do mercado de trabalho tende a reduzir o convívio social cotidiano e a enfraquecer vínculos construídos ao longo da vida laboral. Entendida como a percepção subjetiva de insuficiência nas relações sociais, a solidão tem sido relacionada a piores indicadores de saúde mental, incluindo maior risco de depressão, ansiedade e redução do bem-estar subjetivo, sobretudo entre pessoas idosas que vivem sozinhas, apresentam limitações funcionais ou dispõem de redes de apoio restritas. Por outro lado, pessoas que conseguem atribuir novos sentidos à vida pós-laboral, por meio do engajamento em atividades sociais, culturais, educativas ou voluntárias, tendem a apresentar melhor adaptação psicológica e menor percepção de isolamento (Costa et al., 2023).
Embora parte da literatura concentre-se nos aspectos cognitivos da aposentadoria, revisões sistemáticas apontam que as características do trabalho ao longo da vida e a capacidade de adaptação ao período pós-aposentadoria influenciam de forma mais ampla a saúde mental. A redução dos estímulos sociais e cognitivos anteriormente associados ao trabalho pode impactar o bem-estar emocional, especialmente quando não é compensada por outras formas de participação social significativa, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada da saúde da pessoa idosa (Farias et al., 2021).
Esses achados evidenciam a importância de compreender a aposentadoria como um processo dinâmico, inserido no curso de vida e atravessado por determinantes sociais, econômicos e subjetivos. A promoção de um envelhecimento ativo requer intervenções que valorizem a singularidade das trajetórias, fortaleçam redes de apoio e estimulem a participação social. Nesse contexto, a atuação multiprofissional, envolvendo gerontólogos, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais da saúde, é fundamental para apoiar a pessoa idosa na construção de novos projetos de vida e na prevenção do sofrimento emocional e da solidão.
Referências:
BARRETTO COSTA, Marcela et al. Aposentadoria e depressão: perspectiva para clínica ampliada. Revista de Salud Pública, v. 25, n. 2, 2023.
FARIAS, Neméia Oliveira et al. Aspectos cognitivos da pessoa idosa na aposentadoria: uma revisão sistemática. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 13, n. 2, p. e5957-e5957, 2021.
FREITAS, Ana Paula Goulart de; SENA, Klaide Lopes de; RODRIGUES, Jôsi Fernandes de Castro. Sintomas depressivos e recebimento de aposentadorias ou pensões: uma análise transversal do ELSI-Brasil. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 32, p. e2023294, 2023.
Assinam esse texto:
Profª Msc. Gabriela dos Santos – Docente do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. É pesquisadora no Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP e atua com estimulação cognitiva para pessoas idosas.
Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo.
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