A Vacinação como ferramenta de proteção e qualidade de vida na velhice
A vacinação é considerada uma das intervenções de saúde pública mais eficazes para a prevenção de doenças, incapacidades e mortes ao longo do curso de vida. Seu impacto vai além da proteção individual, contribuindo para a redução da circulação de agentes infecciosos, da sobrecarga dos serviços de saúde e dos custos associados ao tratamento de doenças evitáveis (BRASIL, 2023). Entre as pessoas idosas, a imunização assume papel ainda mais relevante devido às alterações fisiológicas decorrentes do envelhecimento e ao aumento da vulnerabilidade frente a infecções e suas complicações.
Com o avanço da idade, o organismo passa por alterações fisiológicas que afetam o funcionamento do sistema imunológico, fenômeno conhecido como imunossenescência. Esse processo é caracterizado pela diminuição da capacidade de resposta imunológica frente a agentes infecciosos e pela redução da eficácia dos mecanismos de defesa do organismo, tornando as pessoas idosas mais suscetíveis a infecções, complicações clínicas e mortalidade (WEINBERGER et al., 2008; CROOKE et al., 2019). Além disso, a presença frequente de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão arterial, diabetes mellitus e doenças cardiovasculares, pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade desse grupo etário (BRASIL, 2023).
Entre as doenças infecciosas de maior impacto na população idosa destacam-se as doenças respiratórias, especialmente influenza, pneumonia pneumocócica e COVID-19. Essas condições estão entre as principais causas de hospitalização e óbito em pessoas com 60 anos ou mais, particularmente entre aquelas com comorbidades preexistentes (BRASIL, 2023). Estudos demonstram que a vacinação contra influenza reduz significativamente o risco de complicações respiratórias graves, internações hospitalares e mortalidade entre pessoas idosas, constituindo uma importante medida de proteção individual e coletiva (DOMINGUES; TEIXEIRA, 2013).
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente vacinas recomendadas para a população idosa por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Entre as principais vacinas previstas no calendário vacinal da pessoa idosa destacam-se: influenza (anualmente), COVID-19, pneumocócica, difteria e tétano (dT), hepatite B, febre amarela (em situações específicas) e herpes-zóster, conforme critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2025). A manutenção do esquema vacinal atualizado contribui para a prevenção de doenças evitáveis, redução da sobrecarga dos serviços de saúde e preservação da capacidade funcional durante o envelhecimento.
A vacinação também desempenha papel fundamental no aumento da expectativa de vida observado ao longo do último século. A ampliação da cobertura vacinal, associada a melhorias sanitárias e ao acesso aos serviços de saúde, contribuiu significativamente para a redução da mortalidade por doenças infecciosas e para o aumento da longevidade da população mundial (PLOTKIN; ORENSTEIN; OFFIT, 2018). No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações é reconhecido internacionalmente por seu impacto na eliminação e controle de diversas doenças imunopreveníveis, beneficiando diferentes gerações ao longo do curso da vida (DOMINGUES et al., 2020).
A proteção conferida pelas vacinas repercute diretamente nas condições de saúde e funcionalidade das pessoas idosas. A prevenção de doenças imunopreveníveis reduz o risco de complicações clínicas, hospitalizações e incapacidades que podem acelerar o declínio funcional e comprometer a independência durante o envelhecimento (BRASIL, 2023). Além disso, a manutenção de bons níveis de saúde favorece a continuidade da participação social, das atividades cotidianas e do convívio familiar e comunitário, aspectos reconhecidos como determinantes para o envelhecimento saudável (OMS, 2020). Nesse sentido, a vacinação deve ser compreendida como uma importante estratégia de promoção da saúde, prevenção de agravos e preservação da capacidade funcional ao longo da velhice.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Informe técnico operacional para a vacinação contra a influenza. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
CIABATTINI, A. et al. Vaccination in the elderly: the challenge of immune changes with aging. Seminars in Immunology, London, v. 40, p. 83-94, 2018.
CROOKE, S. N. et al. Immunosenescence and human vaccine immune responses. Immunity & Ageing, London, v. 16, n. 25, p. 1-16, 2019.
DOMINGUES, C. M. A. S.; TEIXEIRA, A. M. S. Coberturas vacinais e doenças imunopreveníveis no Brasil no período de 1982 a 2012: avanços e desafios do Programa Nacional de Imunizações. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 22, n. 1, p. 9-27, 2013.
DOMINGUES, C. M. A. S. et al. 46 anos do Programa Nacional de Imunizações: uma história repleta de conquistas e desafios a serem superados. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 36, supl. 2, e00222919, 2020.
LEVIN, M. J. Immune senescence and vaccines to prevent herpes zoster in older persons. Current Opinion in Immunology, London, v. 24, n. 4, p. 494-500, 2012.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Decade of Healthy Ageing: 2021–2030. Geneva: World Health Organization, 2020.
PLOTKIN, S. A.; ORENSTEIN, W. A.; OFFIT, P. A.; EDWARDS, K. M. Plotkin’s Vaccines. 8. ed. Philadelphia: Elsevier, 2024.
WEINBERGER, B. Vaccines for the elderly: current use and future challenges. Immunity & Ageing, London, v. 15, n. 3, p. 1-8, 2018.
Autoras:
Djessica Hilton Peixoto – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e Assessora Científica no Método Supera – Estimulação Cognitiva. Pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades relacionadas ao envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: djessicahiltongeronto@gmail.com
Kauane Macedo Barbosa – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e Assessora Científica no Método Supera – Estimulação Cognitiva. Atua como pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Participa como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital, educação gerontológica e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: gerontokauane@gmail.com
Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
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