Três rodas e mil sorrisos: triciclos promovendo qualidade de vida para pessoas idosas

Promover um envelhecimento ativo e saudável envolve, além de cuidados com a saúde clínica, criar oportunidades para que pessoas idosas mantenham sua autonomia, funcionalidade e participação social. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2024) afirma que o engajamento social, a mobilidade e o acesso a atividades significativas são pilares essenciais para a saúde na velhice. Esses pilares podem ser ainda mais determinantes para populações específicas, como quem vive em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs).
Devido aos desafios provocados pelo envelhecimento populacional, cresce o interesse por iniciativas relacionadas ao lazer, mobilidade e inclusão, entre elas, os triciclos adaptados. Essas iniciativas, inspiradas em projetos internacionais como o Cycling Without Age, oferecem passeios ao ar livre, contato com o território, experiências intergeracionais e momentos de liberdade e prazer, fatores associados à melhora do humor, da cognição e da autoestima.
A literatura mostra que atividades externas, especialmente aquelas que envolvem movimento e exploração do ambiente, têm impacto positivo na saúde mental e física de pessoas idosas institucionalizadas, reduzindo sintomas depressivos, ampliando a sensação de pertencimento e fortalecendo redes de apoio (Chapman et al., 2024). Além disso, práticas que combinam atividade física e socialização contribuem para a preservação da capacidade funcional, aspecto fundamental para a independência (Dodds et al., 2024).
Assim, projetos com triciclos adaptados são consideradas iniciativas inovadoras, inclusivas e alinhadas às recomendações da Década do Envelhecimento Saudável (OPAS/OMS, 2020), ao promover ambientes de cuidado mais abertos, dinâmicos e humanizados. Entre as principais iniciativas brasileiras com triciclos adaptados destacam-se:
- Blue Bikers Brasil – Oferece oficinas de ciclismo e passeios utilizando diferentes modelos de triciclos. A iniciativa reforça a interação da pessoa idosa com o ambiente urbano e estimula mobilidade ativa e convivência;
- Pedalando Sem Idade – Inspirado no movimento internacional, promove inclusão e lazer com passeios guiados em triciclos adaptados, ampliando a circulação e a participação social de pessoas idosas;
- Oficina de Ciclismo – Viver Bem da Melhor Idade – Direcionado a pessoas com 50 anos ou mais, combina aulas teóricas e práticas com bicicletas e triciclos, fortalecendo coordenação motora, equilíbrio e resistência cardiovascular;
- Pedalando com a PUC em parceria com a EACH-USP – Desenvolvido especialmente para residentes de ILPIs, inclui passeios, visitas institucionais e atividades formativas. Além de proporcionar bem-estar, integra comunidade acadêmica e residentes em uma experiência intergeracional;
- Triciclos Sem Pedais – Focado em ILPIs, investiga os efeitos da locomoção em triciclos sem pedais. O projeto evidenciou ganhos importantes, como melhora da resistência aeróbica, agilidade, velocidade e autonomia, reforçando o papel dos triciclos na prevenção da perda de mobilidade.
As iniciativas brasileiras analisadas demonstram que os triciclos adaptados podem ser considerados como uma tecnologia social capaz de transformar o cotidiano das ILPIs. Ao incorporar projetos desse tipo, as ILPIs podem fortalecer espaços mais saudáveis, dignos e humanizados, contribuindo com a preservação da funcionalidade e bem-estar emocional dos residentes.
Referências:
CHAPMAN, H.; BETHELL, J.; DEWAN, N.; et al. Conexão social em lares de longa permanência: um estudo qualitativo de barreiras e facilitadores. BMC Geriatrics, v. 24, n. 857, 2024.
DODDS, L.; BRAYNE, C.; SIETTE, J. Associations between social networks, cognitive function, and quality of life among older adults in long-term care. BMC Geriatrics, v. 24, n. 221, 2024.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Integrated Care for Older People (ICOPE): Guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO, 2024.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030. Washington, D.C.: OPAS/OMS, 2020.
Assinam esse texto:
Marta Cristina da Silva – Fisioterapeuta (1996) e Educadora Física (1992), mestranda do programa de pós-graduação em Gerontologia na EACH/USP. Especializou-se em “O Aparelho Locomotor no Esporte” pela UNIFESP e possui pós-graduação em Saúde Coletiva com ênfase em Saúde da Família pela Universidade Nove de Julho. Com mais de 22 anos de experiência na área da Gerontologia em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) de São Paulo, atuou como fisioterapeuta e coordenadora assistencial. Além disso, possui experiência no atendimento fisioterapêutico a ex-atletas em fase de aposentadoria. Em 2019 e 2023, realizou visitas técnicas em instituições de Long Term Care em Alberta, Canadá e atualmente com países: Inglaterra, Austrália e Holanda. E-mail: dramartasilva@hotmail.com.
Tamires Fernanda Barbosa Nunes – Engenheira de Produção. Doutoranda em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho (UNICSUL) e em Docência com ênfase na Educação Básica (IFMG). Membro do grupo de pesquisa GMETTA (UFSC) e do Comitê Técnico de Ergonomia e Engenharia de Resiliência da Associação Brasileira de Ergonomia e Fatores Humanos (ABERGO). E-mail: tamiresfbnunes@gmail.com
João Paulo Lucchetta Pompermaier – Arquiteto e Urbanista. Doutorando e Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UFSC). Pós-graduando em Neuroarquitetura (UNISUL). Especialista em Docência no Ensino Superior e em Design de Interiores (UNICSUL). Membro dos grupos de pesquisa GMETTA (UFSC) e GEA-hosp (UFBA). Membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (ABDEH) e Coordenador Técnico-Científico da Regional Santa Catarina.
E-mail: joaopaulopompermaier@gmail.com
Profa. Dra. Beatriz Aparecida Ozello Gutierrez – Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre e graduada em Enfermagem pela USP. Pós-Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília (UnB). Professora Doutora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), atuando na Graduação e Pós-Graduação em Gerontologia. Docente do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da EACH-USP. Áreas de atuação e pesquisa: Gerontologia, Cuidados Paliativos, Qualidade de Vida e Envelhecimento, Gestão de Pessoas, Gestão de serviços em saúde e social, e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. E-mail: biaagutierrez@gmail.com
Profª Msc. Gabriela dos Santos – Docente do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. É pesquisadora no Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP e atua com estimulação cognitiva para pessoas idosas. E-mail: santosgabriela084@gmail.com
Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordenadora de grupos de apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br

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