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Como envelhece o cérebro de pessoas com altas habilidades ou superdotação?

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As altas habilidades ou superdotação estão relacionadas a um desempenho ou potencial elevado em determinadas áreas, podendo envolver capacidade intelectual, criatividade, raciocínio e habilidades acadêmicas específicas. Embora grande parte das pesquisas sobre o tema esteja concentrada na infância e na adolescência, ainda existem poucas evidências sobre como essas características se manifestam durante o envelhecimento. Uma das questões que começam a despertar o interesse científico é se pessoas com altas habilidades apresentam uma trajetória de envelhecimento cognitivo diferente daquela observada na população em geral.

Estudos realizados durante o desenvolvimento indicam que níveis elevados de capacidade intelectual podem estar associados a diferenças na trajetória de maturação cerebral. Shaw et al. (2006), ao acompanharem crianças e adolescentes por meio de exames de neuroimagem, observaram diferenças no desenvolvimento do córtex cerebral relacionadas à capacidade intelectual, especialmente em regiões envolvidas em funções cognitivas complexas. Esses resultados sugerem que a inteligência não está relacionada apenas a características estruturais isoladas do cérebro, mas também à maneira como determinadas regiões se desenvolvem e se reorganizam ao longo do tempo (SHAW et al., 2006).

Diferenças também foram identificadas em sistemas relacionados à aprendizagem e à memória. Kuhn et al. (2021) compararam crianças com capacidade intelectual excepcionalmente elevada a crianças com desenvolvimento típico e observaram diferenças no tamanho e na conectividade de estruturas cerebrais envolvidas nos sistemas de memória. Entre os achados foram identificadas particularidades no hipocampo e na organização da substância branca associadas à memória explícita e à integração de informações (KUHN et al., 2021). Esses resultados, entretanto, não significam que exista um único padrão de “cérebro superdotado”, uma vez que as altas habilidades constituem um fenômeno complexo e podem se manifestar de diferentes formas.

Quando o foco é direcionado à velhice, as evidências científicas ainda são limitadas. Um estudo realizado por Pezzuti et al. (2023) avaliou 94 pessoas com altas habilidades intelectuais entre 60 e 90 anos e comparou seus resultados aos de um grupo semelhante quanto à idade, sexo e escolaridade. Os idosos com altas habilidades apresentaram desempenho superior nos diferentes índices e subtestes da Escala Wechsler de Inteligência para Adultos (WAIS-IV), com diferenças especialmente importantes em tarefas de raciocínio matricial e quebra-cabeças visuais. A velocidade de processamento e o raciocínio perceptual também apareceram como pontos fortes nesse grupo (PEZZUTI et al., 2023). A manutenção da velocidade de processamento é particularmente interessante porque essa é uma das habilidades cognitivas frequentemente sensíveis aos efeitos do envelhecimento. Apesar disso, os resultados não permitem concluir que pessoas com altas habilidades apresentem um envelhecimento cerebral biologicamente mais lento.

Um conceito importante para compreender as diferenças individuais durante o envelhecimento é o de reserva cognitiva. A reserva cognitiva ajuda a explicar por que indivíduos com níveis semelhantes de alterações cerebrais podem apresentar manifestações cognitivas diferentes. Experiências acumuladas ao longo da vida, como escolaridade, atividades profissionais complexas e envolvimento em atividades intelectualmente estimulantes, estão entre os fatores relacionados à capacidade do cérebro de lidar com alterações decorrentes do envelhecimento e de processos patológicos (STERN, 2012). Entretanto, possuir uma capacidade intelectual elevada não significa necessariamente estar protegido contra o declínio cognitivo ou contra doenças neurodegenerativas.

Rodriguez e Lachmann (2020), em uma revisão sistemática sobre inteligência, declínio cognitivo e risco de demência, analisaram 14 estudos considerados de qualidade adequada. Os resultados não demonstraram uma associação consistente entre maior inteligência na infância e menor declínio cognitivo durante a velhice. Em relação ao risco de doença de Alzheimer e outras demências, as evidências encontradas foram consideradas inconclusivas (RODRIGUEZ; LACHMANN, 2020). Portanto, embora pessoas com altas habilidades possam manter desempenho elevado em diferentes capacidades ao envelhecer, não há evidências suficientes para afirmar que estejam protegidas contra o desenvolvimento de comprometimento cognitivo ou demência.

Esse aspecto também traz uma questão importante para a avaliação cognitiva de pessoas com altas habilidades. Um indivíduo que apresentou desempenho muito superior à média durante grande parte da vida pode experimentar uma redução significativa em relação ao seu próprio funcionamento anterior e ainda alcançar resultados considerados adequados quando comparados às médias populacionais. Nesse contexto, conhecer a trajetória do indivíduo e observar possíveis mudanças ao longo do tempo pode contribuir para uma compreensão mais precisa de seu funcionamento cognitivo. A avaliação não deve considerar apenas uma pontuação isolada, mas também a história, as capacidades anteriores e as alterações percebidas nas atividades cotidianas.

Até o momento, portanto, a ciência indica que existem diferenças no desenvolvimento e na organização de determinados sistemas cerebrais associados à alta capacidade intelectual e que algumas dessas vantagens cognitivas podem permanecer presentes durante a velhice (SHAW et al., 2006; KUHN et al., 2021; PEZZUTI et al., 2023). Entretanto, ainda não é possível afirmar que o cérebro de uma pessoa com altas habilidades envelheça mais lentamente ou apresenta proteção específica contra doenças neurodegenerativas. Independentemente do nível intelectual, manter oportunidades de aprendizagem, desafios cognitivos, atividade física, participação social e cuidados com a saúde ao longo da vida continua sendo importante para a promoção de um envelhecimento saudável.

Referências

KUHN, T. et al. Neuroanatomical differences in the memory systems of intellectual giftedness and typical development. Brain and Behavior, v. 11, n. 11, e2348, 2021. DOI: 10.1002/brb3.2348.

PEZZUTI, L.; MICHELOTTI, C.; DAWE, J.; LANG, M. Intellectual giftedness in elderly people assessed by Wechsler Adult Intelligence Scale–Fourth Edition: what specific features? Educational Gerontology, v. 49, n. 4, p. 300-310, 2023. DOI: 10.1080/03601277.2022.2109890.

RODRIGUEZ, F. S.; LACHMANN, T. Systematic Review on the Impact of Intelligence on Cognitive Decline and Dementia Risk. Frontiers in Psychiatry, v. 11, p. 658, 2020. DOI: 10.3389/fpsyt.2020.00658.

SHAW, P. et al. Intellectual ability and cortical development in children and adolescents. Nature, v. 440, n. 7084, p. 676-679, 2006. DOI: 10.1038/nature04513.

STERN, Y. Cognitive reserve in ageing and Alzheimer’s disease. The Lancet Neurology, v. 11, n. 11, p. 1006-1012, 2012. DOI: 10.1016/S1474-4422(12)70191-6.

Autoras:

Djessica Hilton Peixoto – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades relacionadas ao envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: djessicahiltongeronto@gmail.com

Kauane Macedo Barbosa – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Assessora Científica no Método SUPERA – Ginástica para o Cérebro, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo (GETCUSP). Atua como monitora da Oficina de Jogos Digitais e Educação para o Envelhecimento Saudável, vinculada ao programa USP 60+, sob coordenação da Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva. Desenvolve atividades nas áreas de envelhecimento, estimulação cognitiva, inclusão digital, educação gerontológica e promoção da saúde da pessoa idosa. E-mail: gerontokauane@gmail.com

Profa. Dra. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. Email: thaisbento@usp.br

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